EPISÓDIO 5: A IGREJA MEDIEVAL E SUAS DIFICULDADES

INTRODUÇÃO

Como vimos, após a queda do império romano e o surgimento de um mundo dominado por povos bárbaros vindos de além-fronteira do mundo romano, coube à Igreja, em especial pela ação missionária e cultural dos monges, reorganizar a caótica sociedade medieval. Como seria de se esperar, o protagonismo da Igreja não foi possível sem muito esforço por parte de nobres, clérigos e santos. Aos olhos da fé, certamente, o Espírito Santo salvou a Fé Católica de desaparecer em certos momentos cruciais da história, como veremos a seguir.

HERESIAS

O combate às heresias nasceu junto com a Igreja. A defesa das Verdades de Fé sempre foi uma necessidade da vida da Igreja. Algumas heresias dos primeiros séculos trataram: necessidade de circuncisão para salvação (heresia judaizante. Século I. Ver: Atos 15); Aversão entre matéria e espírito (Gnosticismo. Séculos I e II e Catarismo – Século XI); Desrespeito à Igreja (Montanismo. Século II); Contra as Pessoas da Santíssima Trindade (Sabelianismo, Arianismo, Monofisismo) e da Maternidade Divina de Maria (Nestorianismo – século V). Muitas delas perduraram por séculos confundindo os fieis, inclusive até os dias de hoje percebemos reflexos de suas influências. Excomunhões, catequese, o Magistério dos Papas e as decisões conciliares foram os remédios que a Igreja se utilizou para extirpar tais erros do meio de povo cristão.

Concílio de Éfeso (ano 431): Proclamou o dogma de Maria como "Mãe de Deus" (Theotokos)

INVESTIDURAS LEIGAS, SIMONIA E NICOLAÍSMO

As investiduras leigas consistiram em intervenções que os reis e imperadores faziam nos provimentos de cargos eclesiásticos, indicando leigos para ocupar cargos episcopais, doando-lhes extensões de terra (bispados) para administração em favor da coroa. Era uma forma que os reis e imperadores firmavam seu poder político em determinadas regiões, usando-se dos que almejavam cargos eclesiásticos, criando a típica relação feudal de suserania e vassalagem. Tal prática teve início no reinado dos francos e se alongou pelos séculos passando pelo Sacro-Império Germânico, Inglaterra e França. A reação da Igreja teve início em 1075, quando o papa Gregório VII promulgou um decreto proibindo tais interferências, o que não ocorreu sem forte oposição de determinados soberanos como o imperador alemão Henrique IV. Imperadores e papas irão percorrer a partir dali um caminho de quase um século de conflitos, tanto ideológicos quanto armados em que excomunhões, exílios e concessões marcariam o embate entre poder secular e poder eclesiástico. Até que em 23 de setembro de 1122, o então imperador germânico Henrique V pactuará com o papa Calisto II a Concordata de Worms que encerraria a questão das investiduras, de modo que não caberia ao imperador a imposição da investidura espiritual. Com as investiduras, vinham por vezes a negociata com os bens eclesiásticos por aqueles que desejavam ocupar um cargo clerical. Foi a simonia. Outra questão foi o nicolaísmo (concubinato de clérigos). Sacerdotes que viviam em concubinato com esposas inclusive gerando prole. Um concílio no Latrão em 1074 convocado pelo papa Gregório VII tratou dessas questões, de modo a privar simoníacos do exercício do ministério sacerdotal, bem como exigiu o celibato do clero.

CISMA DO ORIENTE

Como vimos, o mundo romano desde o século IV estava dividido em Império do Ocidente com capital em Roma e Império do Oriente com sede em Constantinopla (antiga Bizâncio). Este último permaneceu incólume diante das invasões dos povos bárbaros, de modo a se erguer um novo império assentado sob as bases da antiga Roma, porém tomada por uma cultura grega, mas de fé igualmente cristã: O Império Bizantino.

Neste império, havia a Igreja Bizantina guiada pelo Patriarca de Constantinopla. Ela caminhou nos primeiros séculos em comunhão com o papado de Roma. No entanto, a grandeza política de Constantinopla frente a ruína da outrora grandiosa Roma fez com que passasse a existir entre os dois povos um clima de desunião. Neste ponto, política e religião se misturavam e a soberba dos bizantinos por seu poderio político levavam-nos a afrontar a autoridade do bispo de Roma no campo religioso. Não raro, heresias foram favorecidas por bispos bizantinos apenas para afrontar o papado romano.

Dois episódios de desentendimento com os Papas da Igreja Romana protagonizados pelos patriarcas bizantinos Fócio no ano 858 e Miguel Cerulário (século XI) precipitaram as igrejas ocidentais e orientais em um cisma, tendo em vista as excomunhões mútuas lançadas uma contra a outra no ano 1054.

Papa Francisco e o Patriarca Oriental Bartolomeu: representantes da igreja romana e oriental separadas desde o cisma do ano 1054

ISLAMISMO

Surgiu na Península Arábica, a partir do século VII, uma nova crença monoteísta impulsionada pela pregação de um mercador chamado Maomé. Este era membro da tribo dos coraixitas e exercia a atividade comercial. Em suas viagens, teve contato com diferentes formas de religiosidade, inclusive o judaísmo e o cristianismo. Basicamente, pregava a fé em um único deus por nome de ALLAHe que seria ele (Maomé) o seu profeta escolhido, portador da revelação definitiva. Iniciou sua pregação na cidade de Meca, de onde sofreu muita rejeição. O que o levou a fugir para a cidade de Iatreb, que passaria a se chamar “Medina”. Este evento dá início ao calendário muçulmano e foi chamado de “Hégira”. Nesta cidade, Maomé e seus seguidores subjugaram os opositores da nova religião. Após a sua morte, houve uma divisão entre os seus seguidores numa luta pela liderança política e espiritual do povo muçulmano. Surgiram as figuras dos CALIFAS. Eram líderes político-militares sucessores do profeta que impulsionaram o avanço territorial do Islã. Da ação deles surgiram os califados.

O expansionismo territorial do islamismo foi uma de suas marcas mais características. O avanço por meio da conquista militar e cultural seguiu pela Ásia, África até chegar na península ibérica, aqui sendo barrado pelas tropas do povo bárbaro franco chefiado por Carlos Martel. Foi dentro deste expansionismo que ocorreu o encontro com a civilização cristã, em particular no Oriente Médio, que motivou as cruzadas a partir do século XII. Muitos territórios outrora cristãos foram tomados pelos muçulmanos, de modo a antigas comunidades cristãs serem extintas. Inclusive, a queda do Império Bizantino ocorreu diante dos muçulmanos do Império Otomano em 1453 que tomaram Constantinopla de assalto. O livro sagrado é o “ALCORÃO”, muito embora muitos também observem a “SUNNAH” que é basicamente a tradição islâmica referente às ações e falas do profeta Maomé.

NÓRDICOS

Outra chaga na história da Igreja foi aplicada pelas invasões dos nórdicos ou vikings (piratas) como são mais conhecidos. Eram um povo vindo da região da Escandinávia, extremo norte da Europa (Suécia, Noruega, Dinamarca). Exímios navegadores e destemidos guerreiros. Cultuavam deuses pagãos como Odin, Thor e Freya. A religiosidade deste povo estava impregnada por sua veia guerreira1.

A partir do século VIII, lançaram-se em uma série de incursões invasoras ao mundo cristão medieval. Os mosteiros e igrejas eram os alvos principais devido a existência dos ornamentos dourados e as caras relíquias.

A primeira invasão viking documentada ocorreu em 793 ao mosteiro de Lindsfarne situado no nordeste da Inglaterra. Os monges foram brutalmente assassinados, os objetos litúrgicos saqueados. A partir daí, os escandinavos a bordo de suas ágeis embarcações 'Drakkars', navegaram pelos cursos marítimos e fluviais europeus saqueando vilarejos e cidades, espalhando morte e destruição2 onde quer que passassem. No entanto, a odisseia nórdica durou até o século XI. Constituíram uma civilização singular, sofisticada e complexa, que gravou profundas marcas no Ocidente: descobriram a Islândia, Groenlândia e, acredita-se, a América (possivelmente 500 anos antes de Colombo) e criaram longínquas rotas de comércio (norte da África, Arábia e China).

Cena de batalha entre os invasores Vikings e os Saxões na Inglaterra

Notas

1Aqueles que morressem em batalha teriam sua entrada no Valhalla (Salão dos Mortos) garantida. Onde ao lado dos deuses e demais guerreiros, desfrutariam de uma pós-vida de batalhas infindáveis. Ragnarök era o 'juízo final' crida pelos escandinavos como a grande batalha dos deuses contra seus inimigos.

2Sobre tais incursões, teria escrito o monge Alcuíno que vivera na corte palaciana do imperador Carlos Magno: “Com quase 350 anos em que vivemos nesta terra linda, nunca tal terror como o de agora apareceu na Bretanha, que sofre com uma raça pagã. Nem pensado que tal incursão do mar poderia ser feita. Eis a igreja de St. Cuthbert, salpicada com o sangue dos sacerdotes de Deus, despojados de todos os seus ornamentos. Os pagãos derramaram o sangue dos santos ao redor do altar. Pisaram sobre os corpos no templo de Deus como esterco nas ruas.”

Desenvolvido pela Pastoral da Comunicação - Paróquia de Nossa Senhora da Conceição (2017)

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